Carta das Igrejas Gnósticas para o Século XXI

 Em homenagem a Tau Jacques (Robert Amadou)[1]
 Introdução 
Ao longo do século passado, a História das Igrejas Gnósticas permaneceu rica e movimentada. À margem da Ordem Martinista fundada por Papus e totalmente alinhada com ela, a Igreja Gnóstica ramificou-se em numerosos ramos, esta arborescência foi fruto do próprio princípio do movimento gnóstico composto de comunidades livres.
As Igrejas e os Círculos Gnósticos foram, ao longo do século passado, uns cadinhos que permitiram às correntes iluministas, ocultistas e hermetistas perdurarem ou expandirem-se.  A liberdade, a tolerância, o espírito de procura que dominaram, apesar de algumas inevitáveis adversidades, este movimento renovado permitiram a numerosos demandadores reencontrarem-se sem cessar, independentemente dos seus caminhos particulares, num verdadeiro companheirismo.
O movimento gnóstico das Igrejas soube também acolher no seu seio outras correntes para preservá-las e ajudá-las a conhecer um novo desenvolvimento.
Hoje, a fim de que este estado de espírito permaneça, para que o que está vivo não se torne congelado, estão inscritos, nesta Carta das Igrejas Gnósticas para o século XXI, os princípios simples que contribuíram para a sua irradiação.
A adopção desta Carta é livre, ela não confere nenhum direito, somente os deveres que decorrem da ética. Ninguém terá que prestar conta disso, se não é a si mesmo e à Providência. 
 Fonte: Centro Internacional de Pesquisas e de Estudos Martinistas.   Cópia encorajada. 
  • É gnóstico aquele que recebeu o Espírito Santo, este vento feminino, ao mesmo tempo sopro e fogo.
  • É cristão, logo, “vivo”, aquele que se banha no fogo do Espírito e em quem opera este fogo. Deixando-se trabalhar por ele, ele dirige-se rumo ao homem total, ao homem acabado, isto é, ao Homem.
  • Gnose ou Conhecimento é anterior à aparição do Cristianismo. Ela pode ser definida como “o conhecimento de Deus em mim e de mim em Deus” ou “da transcendência na imanência e da imanência  na transcendência”.
  • Gnose não é, por natureza, nem dualista nem não dualista, mesmo se as expressões gnósticas temporais são necessariamente marcadas por um dualismo funcional.
  • A Igreja apresenta um aspecto comunitário e um aspecto individual. Ela é a comunidade dos homens e das mulheres em marcha rumo à sua deificação. Ela é simultaneamente uma realidade interior, experiência da acção deificante de cada ser pelo Espírito Santo.
  • A Igreja real pré-existe em Cristo antes de toda a expressão institucional. Que se trate das “grandes” Igrejas ou de organizações mais discretas, estas manifestações visíveis são umas Igrejas de desejo e não uns lugares humanos que deteriam uma verdade exclusiva.
  • Os ministérios, ordenados no Espírito Santo, transmitidos na sucessão apostólica, legitimados pela comunidade, assegurados pela continuidade das obras dos Apóstolos e dos discípulos, homens e mulheres, representam o pastor e sacerdote único, o Cristo. Não há, então, nem “nova Igreja” nem “Igreja detentora de ritos secretos”.
  • Se a Igreja real é invisível, ela faz sinal através da oração, dos sacramentos, do baptismo, da Eucaristia e das Escrituras.
  • A Igreja realiza-se através da celebração da Eucaristia em todas as suas dimensões (simbólica, alquímica, metafísica, teúrgica, sacramental…).
  1. O Antigo Testamento e o Novo Testamento estão intimamente ligados numa unidade portadora de sentido. A Bíblia, completada por uns Evangelhos apócrifos, deve ser lida como abrindo um caminho rumo ao Cristo.
  1. Além das línguas e pelas línguas, as Escrituras oferecem-se em quatro sentidos: literal (ou histórico), alegórico (ou tipológico), tropológico (ou ético) e anagógico (ou místico) – este último, transcendente e infinito.

  1. Os dogmas são entendidos, totalmente como para os primeiros cristãos, não como verdades expressas, mas como veículos privilegiados dos mistérios.
  1. Maria é forma Dei (molde ativo de Deus). Meditando o mistério de Maria, o gnóstico atinge o estado do metal em fusão e lança-se no seu seio. Assim se opera a gestação da sua vida nova que anuncia a deificação pela graça.
  1. Em Cristo, Homem completo, puro e simples, todo o cristão está unido a todos os seres e todas as formas de vida que ele reconhece como não separados dele mesmo.
  1. As Igrejas Gnósticas constituídas são uma expressão efémera, ao mesmo tempo eco longínquo e celebração, da Igreja real ou Corpo místico do Cristo.
  1. O cristão reintegra-se e para melhor, enquanto se edifica o seu corpo de glória pela liturgia, secundada da teurgia e da alquimia, segundo o protocolo astrológico. A cada dia desta vida, o seu homem interior é renovado: semeado psíquico, ele transfigura-se espiritual, enquanto a sua alma se corporiza. Ele toca, desde agora, as arras da vida futura. Ele transmuta, do mesmo modo, a matéria do mundo.[2]
  1. O Cristo permanece neste mundo pelo sangue e pela água jorrados do seu flanco. Escondido para o mundo no mesmo mundo que eles transfiguram, o cálice que os recolheu aparece aos corações puros.


Écu représentant la Crucifixion du Christ – Vitrail de la salle du Chapitre à Batalha (Portugal) – 1514


[1] Robert Amadou contribuíu largamente para a reflexão sobre as missões das Igrejas Gnósticas, nomeadamente pelo texto Qu’est-ce que l’Eglise gnostique? [O que é a Igreja Gnóstica?], estabelecido em colaboração com Tau Antoine e publicado em 1996 pelo Centro Internacional de Pesquisas e de Estudos Martinistas. Este documento serviu de base à redacção da presente Carta, construída sobre o mesmo princípio colaborativo que a Carta das Ordens Martinistas para o século XXI, proposta pelo Centro Internacional de Pesquisas e de Estudos Martinistas na ocasião do bicentenário do desaparecimento de Louis-Claude de Saint -Martin.
[2] Segundo uma passagem do livreto De la Sainte Science [Da Santa Ciência] de Robert Amadou. 3